Cuidado: Orientalistas a vista! / Caution: Orientalist ahead!

Atualizado: Mai 31

Fazem exatos 22 anos que a dança e a cultura árabe entraram na minha vida. Saí de minha casa aos 19 anos para viver, in loco nos países árabes por 12 anos seguidos e permiti que todos os obstáculos e valores impactassem diretamente o meu desenvolvimento enquanto profissional e mulher. Fui acolhida e cuidada por todos os países pelo qual passei e essa experiência consolidou o afeto e enraizou uma gratidão muito grande. Sendo assim e desde então, tudo o que acontece lá - de certa forma - acontece aqui, dentro de mim. Nunca estive na Palestina mas tive contato com a cultura através de descendentes e amigos queridos. Da mesma forma que me eduquei e acompanhei as Primaveras Árabes, - estando presente em uma dela, inclusive (Tunisia) - e sempre me posicionei por diversos países, Palestina não seria diferente. E faço isso não somente por esta gratidão que carrego, mas porque sou humana e porque ME SUSTENTO E ME REALIZO através da cultura árabe em geral. Se convém declarar-me uma profissional/representante da cultura árabe, deve me conver também este posicionamento. Surpreendentemente (ou não), nem todas as pessoas dançantes pensam da mesma forma e minha cara comunidade de danças árabes brasileira deixou isso latente com um silêncio SEPULCRAL nas redes sociais nos últimos 7 dias. Uma comunidade apaixonada por essa cultura, que estuda, aprende o idioma, come a comida, que "veste a camisa" e enrola o keffiyeh. Viaja, visita, bate no peito e defende esse amor. Se declaram no plural, se definem no plural: danças árabes, danças folclóricas! Um silêncio sepulcral. Me lembro do barulho que fizemos ao Líbano, ano passado. Não sobrou para a Palestina. Aliás, não sobra para várias coisas. A conveniência, imparcialidade e assimetria de valores (que sejamos francos, sempre existiu) está escancarada. Onde estão os dabkes, abram as gavetas... onde estão os Keffiyehs? Assisto dia após dia, nossa geração (sim, estou inserida para o bem e para o mal) orgulhosa da diversidade, da elevação espiritual e da feminilidade, dormir e acordar num mundo colorido e mágico onde pessoas se salvam, se realizam e se deliciam através de uma cultura mas não dedicam um "storizinho" para uma limpeza étnica, um genocídio. Se tem espaço para todo mundo e o sol brilha para geral - me questiono por quê sua atenção não é merecida também nesta causa? A ignorância não mais se justifica por falta de informação. É por escolha. Um silêncio sepulcral. Do FALA ESME com louvos e cancelamentos para a chegada da maternidade e a imensa visibilidade que ganhei no mundo das danças árabes mundial, que me encheu de medo e me fez recuar; Hoje eu retorno.

Me re-inventei (vocês já sabem que faço isso muito bem) num mosaico que inclui todo o atrevimento, destemor e coragem que sempre tive mas deixei adormecer (publicamente), com o embasamento, a sensibilidade e o tamanho que acumulei até hoje para vir aqui agora me reapresentar e fazer um alerta: Quem de conveniência cultural se sustenta, orientalista é. #palestinalivre

Dedico este texto à Thais Baptista e Angela Cheirosa, pelo apoio. À minha mãe, pelos valores e à minha filha que sempre me faz buscar por mais e que lerá isso no futuro. Espero te deixar orgulhosa, meu furacãozinho! ART BY ICHRAQ BOUZIDI.

ENG: It's been exactly 22 years that Arab Dances and Culture are part of my life. At 19 years old I left home to live in Arab countries for 12 years and I allowed every obstacle and every value to have an impact on myself as a professional and as a woman. All of the countries I've been through have welcomed and looked after me and this experience strengthened my affection and took root in the form of an indescribable feeling of gratitude. As such, and since then, all that happens over there - in a certain way - happens over here, inside me. I've never been to Palestine but I was in touch with the culture - through the descendants and beloved friends. Since I educated myself and followed closely most of the Arab Springs - being present in one of the countries (Tunisia) - I've always assumed my position for many countries, and Palestine wouldn't be any different. I'm doing this not only due to the gratitude I feel, but also because I am human and because I MAKE MY PAY AND GET FULFILLMENT through Arab Culture in general. If I declare that I'm a professional/representative of Arab Culture then I must make this statement. Surprisingly (or not), not every dancer thinks the same way and my dear brazilian belly dance community made it clear with a DEATHLY SILENCE on social media in the past weeks. A community of people "in love with the Culture". People who study, learn the language, eat the food and wear the Keffiyeh. They travel and swear their love to the winds. However, A DEATHLY SILENCE. I remember the noise we did for Lebanon last year. There isn't enough left for Palestine. In fact, there isn't enough left for many things. Convenience, neutrality and the double standards (which, let's be honest, were always there) are now out in the open. Where are the dabkes? Open the drawers... Where are the Keffiyehs? Day after day I watch our brazilian dance community (and yes, I'm part of the same, for better or for worse) so proud of diversity, of spiritual evolution and of femininity go to sleep and wake up in a colorful imaginary world - where they get their salvation, their sense of realization and enjoyment and fulfillment through the Arab Culture. Even so, they cannot dedicate a single "instagram stories"to talk about the ethnic genocide. If the sun shines for everyone and there's a place for everyone in the community, why isn't this matter worth your attention? Ignorance can't be justified by a lack of information. Not anymore. It's a choice. A DEATHLY SILENCE. From my early days in the Arab countries, to my YT videos that brought me praises and cancelments. From motherhood to the unbelievable visibility I gained in the world of belly dance, which made me so scared I backed off - I now return. I have reinvented myself in a mosaic filled with the daring attitude, fearlessness and bravery I've always had but was (publicly) dormant, with the knowledge and strength I've gathered so far I come here to reintroduce myself and to sound on alert: Those who only acknowledge that which is convenient are, in fact, orientalists. #freepalestine I dedicated this text to Thais Baptista and Angela Cheirosa for all their support. To my mother, for all the values learned and to my daughter, who pushed me foward and who'll read this in the future. I hope I'll make you proud, my little storm! Translated by Anaíse Nóbrega.

551 visualizações

Posts recentes

Ver tudo